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Nossa senhora das dores - sobre as dores no puerpério e a necessidade do resguardo.

Minha avó disse que todas as mulheres choram no quarto dia. Ela disse que tem algo a ver com os hormônios, mas poderia ser a privação de sono, a dor nos pontos, a exaustão completa do corpo e do espírito. Porém, é claro, tem os hormônios. Chorando no banheiro, eu me lembrei disso. Fiz as contas, era o quarto dia, me senti aliviada. Eu não era mais uma louca chorando no banheiro, eu estava apenas seguindo o script. Se me perguntassem por que eu estava chorando, eu enxergaria uma constelação de motivos difusos, mas não conseguiria nomear uma causa concreta. E, afinal de contas, você quis isso, por que você está chorando? Você que quis isso, não é para chorar, mas chorar é normal no quarto dia. Tem algo a ver com os hormônios, “os hormônios do leite”. Que alívio, não sou eu, é o meu corpo!


Eu detesto a palavra puerpério. Certamente é uma das palavras mais feias da língua portuguesa, a pronuncio e é como se minha boca se enchesse de cascalho. Não, resguardo é melhor. Resguardar é se proteger, se defender, minha boca se enche de arruda. “Está de resguardo”, não é uma ação, é um estado. Não se diz que a mulher parida “está se resguardando”, se diz que “está de resguardo”. É uma não-ação, pois o que quer que ela esteja fazendo, não está fazendo isso no mundo. Está escondida, em animação suspensa.


Minha outra avó conta que sua avó, no sertão do Rio Grande do Norte, quando sentia as dores do parto, entrava em uma sala e, de cócoras, paria seu filho. Ela mesma cortava o cordão. Só então a parteira podia entrar. Ela acompanhava a expulsão da placenta e depois tomava conta da parturiente. Ela não chamava a parteira para parir o bebê, mas para que cuidasse dela, como se fosse ela que estava se parindo. Depois, o bebê era mantido no escuro. Eles nasciam de olhos fechados, raros eram os bebês que nasciam de olhos abertos. “Agora, com o ácido fólico, eles nascem todos de olhos abertos”, diz a minha mãe. Mas antes não eram assim. Recém-nascidos não deveriam ser expostos à luz, viviam na penumbra, em um mundo de sombras, junto das parturientes. O puerpério desta época tinha cheiro de frango e de milho: canjica e canja de galinha, este era o cardápio da mãe nova. “A canjica é boa pra dar leite”, diz a minha sogra. No quintal do sítio, separavam algumas galinhas “para a parida”. Um mundo escuro, cheio de milho e frango.


Eu considerei que o resguardo terminava quando o sexo recomeçasse. “45 dias de abstinência”, foi o que disse o médico enquanto costurava o meu períneo. Foi o tempo que me dei para me resguardar e sentia que quando voltasse a trepar, o resguardo teria terminado. Há algo menos resguardado no mundo do que trepar? Parecia uma boa medida, já que foi uma trepada que gerou todo esse ciclo de gravidez, nascimento e resguardo. Fazia sentido que ele terminasse como começou.


Enquanto algumas mulheres se maravilham com o parto, uma experiência em que o seu corpo é tudo que você é, eu acho o pós-parto muito mais avassalador e insondável. Falamos tão pouco sobre, parece um segredo, mas é porque nos esquecemos dele quando ele passa. No sertão dizem que “Nossa Senhora passa a mão na cabeça”. Ela passa a mão na sua cabeça e você esquece a dor do parto, você esquece o pós-parto, e só esquecendo pode ter outro filho. Quem, em sã consciência, poderia passar por tudo isso de novo se lembrasse? Quando engravidei de meu segundo filho, fui visitar uma amiga recém-parida para contar a boa nova. Ela estava lá em seu resguardo, e eu sorrindo disse que tinha uma coisa para contar. Ela imediatamente soube o que era e reagiu com horror, disfarçado de humor “Como é que você pode querer fazer isso de novo?” Nossa Senhora ainda não tinha passado a mão na cabeça dela, claramente.


Mulheres que tiveram filhos não sabem muito bem o que dizer para uma amiga que está de resguardo. Nós não lembramos, simplesmente. Elas falam das coisas e elas evocam uma memória difusa, uma fumacinha de memória lá longe, vaga e disforme, como uma recordação muito, muito antiga. “Ah, sim, tem isso, é verdade”. Mas elas também vão esquecer. Vai ver não é Nossa Senhora, vai ver são os hormônios. Memórias são criadas durante o sono, talvez a privação do sono não permita que essas memórias se fixem muito bem.


Talvez Nossa Senhora não tenha tido outro filho porque não podia passar a mão na própria cabeça e fazer-se esquecer da dor. Talvez ela nunca tenha saído do resguardo, pois não trepou nem para conceber o filho, nem depois. Ficou para sempre lá, no mundo de penumbra, canjica e canja de galinha, da manjedoura até o calvário. Me lembro de ver meu rosto no espelho enquanto chorava no banheiro – a expressão de dor no meu rosto era a mesma de uma estátua de pietà.


Meu filho fez nove meses e já sinto os dedos esguios da Senhora das Sete Dores penetrando na minha fronte, movendo-se contra a raiz de meu cabelo.


Tudo isso será esquecido.



A AUTORA

Julia Debasse é artista e vive em Fortaleza, conheça seu trabalho no perfil @juliadebasseart.

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